O sucesso económico de um país, a longo prazo, assenta, entre outros investimentos, na educação da sua juventude.
Aos seis anos de idade tiram-nos de casa e metem-nos na escola para aprender a ler e a escrever. A partir desse momento, a educação para a vida, a nossa construção como homens e mulheres de amanhã – líderes políticos, legistas, deputados, arquitectos, engenheiros, pensadores, o que seja – é partilhada entre aquilo que é ensinado em casa e aquilo que é ensinado na escola.
A sede de lucros, a urgência no pagamento de dívidas externas e o equilíbrio das demais balanças comerciais faz com que as nações, e os seus respectivos sistemas de ensino, ponham de lado o ensinamento de certas capacidades cognitivas teóricas e, ainda pior, práticas.
Assim, assistimos à criação de máquinas dóceis e úteis à evolução económica de determinada nação, sendo posta de parte a educação intelectual dos jovens para um estatuto de cidadania pautado pelo pensamento próprio e intrinsecamente crítico, pela capacidade de discernimento e autonomia nas decisões da sua vida e por um grau de aprendizagem que transcende a memória e pode ser aplicado às vivências - estatuto esse que só pode ser dado através de um ensino para a compreensão e para o questionamento e não para a memorização. A educação em protocolo, que se transmite através de livros de instruções intitulados manuais de aprendizagem não é educação. Convenhamos: até um cão aprende truques. A humanidade encontra-se em regressão de valores e as democracias enfraquecem-se e só o ensino das Artes e das Humanidades às gerações do porvir podem evitar esse destino.
A literatura, a filosofia, a arte e, até, a ciência, são sombras daquilo que eram ontem. O desenvolvimento destas áreas sofre agora de um caso de letargia aguda provocada pela obtusidade de conceitos e ensinamentos, um desbobinar de lugares-comuns a um auditório de um quarteirão de mentes frescas, que aparentemente assim se prostra disponível a, infelizmente, comer e calar.
Esquece-se, porém, quem porventura manda que as ideias leccionadas, repetidas até à exaustão, testadas e avaliadas (para depois serem prontamente olvidadas), não nasceram do acaso nem tampouco de mentes sisudas e a juventude é obrigada então a suprimir a sua voz e a sua criatividade, objecto de uma educação para o fazer, não para o saber-fazer e muito menos para o duvidar e o questionar.
Muito se poderá fazer em prol da estabilidade económica mundial. Aceito, portanto, que se tomem medidas drásticas quando estamos perante uma situação dramática à escala global, mas pior que a crise que se vem alastrando desde 2008, é a crise que passa quase despercebida, tanto no seio da sociedade como nos media: uma crise cultural e educacional.
Nos Estados Unidos da América, a título de exemplo, a ex-candidata ao cargo de presidente Sarah Palin, disse certa vez num debate que, dos míseros 6% do PIB norte-americano que são usados para a educação, se deviam cortar os apoios às Artes e às Humanidades, visto serem matérias frívolas e sem qualquer utilidade económica para o desenvolvimento social de uma nação, a mesma nação que se diz a mais democrática do mundo enquanto gasta 56% do seu PIB em gastos militares. Não preciso de referir que a mesma Sarah Palin era candidata pelo partido republicano, conhecido pelo seu conservadorismo e pela aversão às igualdades sociais e demais ideias democráticas.
As Humanidades têm vindo a perder importância e destaque nos currículos profissionais nos países desenvolvidos. No Brasil, país ainda em desenvolvimento e uma das principais economias emergentes do mundo, a Filosofia acabou de ser incluída no programa educacional do ensino médio, equivalente ao ensino secundário português, enquanto cá a Filosofia, de um ano para o outro, passou de possível disciplina de ingresso para todos os cursos do ensino superior, para disciplina de ingresso em nenhum dos cursos.
O XIX e actual governo constitucional da República Portuguesa extinguiu o Ministério da Cultura sob o pretexto de contenção de despesas, porém o custo total dos subsídios de alimentação dos duzentos e trinta deputados do Parlamento português, que podem acumular cargos e que não têm, propriamente, um nível de vida precário, ultrapassa os dois milhões de euros. O IVA sobre os espectáculos culturais subiu de 6% para 13%, tendo estado ainda previsto subir para 23%, enquanto o IVA sob a prática do golfe, desceu para os 6%, ou seja, para quem manda, o golfe é considerado algo essencial.
Qual a razão destes ataques às Humanidades, às Artes e à Cultura?
Os aspectos humanísticos das ciências – a imaginação, a criatividade e o pensamento crítico rigoroso – vão perdendo terreno, enquanto as nações preferem procurar lucros a curto prazo através do cultivo em massa de capacidades e saberes adequados a esse objectivo.
Onde é que um aluno de Física ou Química é estimulado a fazer as suas próprias experiências, conseguir resultados por si próprio, demonstrar algo através das suas próprias equações? Em pouco ou nenhum lado. Em vez disso, vêm-lhe as experiências no livro da matéria explicadas por pontos enumerados, rigorosamente explicitadas para não haver margem de erro e, no fim, o professor pede um relatório, devidamente organizado, para realmente constatar que o aluno fez a experiência. Ao cultivarmos uma aprendizagem de repetição não vamos chegar a lugar algum. Enquanto não dermos aos nossos alunos liberdade para errar – não lhes fazermos a papinha toda, como se costuma dizer – não haverá liberdade para evoluir e melhorar.
É este tipo de ensino, o ensino das chamadas ciências exactas, que se encontra, actualmente, muito mais dignificado na sociedade, visto que um país que esteja num estado semelhante ao do nosso vai apostar cada vez mais nas engenharias e nas economias, porque é realmente o dinheiro a força motriz que move o mundo.
É por isso que as democracias mundiais estão em carência: há uma crise ética e educacional, uma escassez de valores, uma incapacidade de tratarmos o próximo em relação de afinidade mais que mero objecto de proveito, porque a pedra angular da democracia é o respeito, e para respeitar há que reconhecer que o outro é, de facto, humano como nós e não um simples objecto.
Só através do estudo da História, das Línguas e da Geografia nós conseguimos compreender o mundo em que vivemos e a sua complexidade, ainda mais na pequenez em que o mundo se tornou com a globalização, através do fomento do pensamento livre e crítico, da imaginação ousada e da compreensão da complexidade da realidade mundial em que vivemos, mormente numa altura em que dependemos cada vez mais de pessoas que não conhecemos, indivíduos de outras pátrias, raças ou credos, e eles dependem de nós. Todos os problemas que temos de resolver – económicos, ambientais, religiosos ou políticos – encontram-se projectados à escala mundial. Hoje em dia o problema de um país é um problema do mundo, porque os laços económicos assim o ditam. Dessa maneira, temos de ensinar aos nossos jovens que vivemos num mundo heterogéneo e que para o percebermos temos de perceber da sua história e das suas gentes. O conhecimento, é certo, não faz um bom cidadão, mas a ignorância construirá um mau cidadão sem noções do bem.
Dizia Sócrates que “uma vida não examinada não vale a pena ser vivida”. Examinar a vida é constatar que temos a capacidade de usar referências históricas no quotidiano, usar e pensar criticamente sobre princípios económicos, comparar diferentes visões de justiça social, falar uma língua estrangeira, apreciar a complexidade do relativismo cultural e da religiões do mundo, aceitá-las e respeitá-las. Possuir um catálogo de factos que nos possam ajudar a ganhar uma macheia de dinheiro num programa de TV sem ter a capacidade cognitiva de os juntar, ordenar cronologicamente, possuir todas as verdades do mundo mas com elas não conseguir construir uma narrativa que vá contra os dogmas mais antigos é quase tão mau quanto ser completamente ignorante.
É urgente deixar de ensinar doutrinas poeirentas aos nossos jovens e começar a transmitir-lhes que é necessário preservar e fazer crescer aquilo que tanto amamos: a liberdade. Liberdade de pensamento, de crítica, de educação; a liberdade ética, moral e religiosa – mas uma liberdade que esteja intrinsecamente ligada por laços indissolúveis à responsabilidade. Não podemos deixar que tudo isto fique apenas na teoria.
Lutámos pela liberdade de expressão e ganhámo-la após vários anos de opressão, apenas para não saber como ensinar as novas gerações a usá-la.








